Selo Gazeta Pará-minense
Logo Gazeta Pará-minense Fundador: Francisco Gabriel Bié Barbosa

Alcance, credibilidade e imparcialidade,
desde 1984

Ano 42 - Nº 2140

18 de Setembro de 2026

2140

HISTÓRIA DE VIDA

Historias

17/09/2026
HISTÓRIA DE VIDA

Anna dos Reis Silva, enfermeira aposentada, filha de Raimundo Adelino da Silva e Maria Adelaide Chaves, nasceu em 6 de janeiro de 1940, na residência onde ainda mora, no bairro Coração de Jesus. Teve onze irmãos, sendo que cinco morreram ainda pequenos e seis sobreviveram, mas hoje apenas ela,que é a caçula da família, está viva. Solteira, ela não teve filhos. Para saber mais sobre a história de vida dela, a reportagem GP conversou com Anna. Acompanhe.

“A minha infância foi muito simples, porque naquela não tinha muita coisa, brincávamos com coisas simples, como casinha, boneca, demàrré e pular corda, com as meninas que eram minhas vizinhas. A gente varria o terreiro de chão e brincava. Eu brinquei até chegar à idade de ir para a escola com 7 anos, porque não existia jardim de infância ainda. Estudei na escola Governador Valadares, onde a diretora era a dona Orosina Mendonça e a irmã, dona Vicentina, que também trabalhava lá. Fiz até o 4º ano antigo e, depois, fiquei em casa. Minha mãe me falou pra não sair pra rua e eu respondi: Não vou pra casa de ninguém, não! Vou ficar aqui, ajudando a senhora! E fiquei assim, até os meus 14 anos. Depois, ela conversou com os médicos Heleno, Silvino, Edward e Jacinto, para eles arrumarem um serviço pra mim lá no hospital, nem que fosse na cozinha, ajudando a picar verdura e cascar alho, mas eles falaram que não podia ainda não, porque eu era menor e poderia chegar um fiscal e me pegar. Aí, minha respondeu pra eles: Se chegar, vocês escondem ela (risos). Assim, eu acabei indo, mas ficava lá com as funcionárias da enfermaria brincando, mas a minha mãe queria que eu fizesse qualquer coisa, para poder ir aprendendo a trabalhar. Aí, eu ficava lá na porta, olhando elas no serviço. De vez em quando, elas me chamavam para eu ver elas trabalharem e, assim, fui começando aos pouquinhos, ajudando as meninas nas enfermarias de crianças,” relembra Anna.

UM MONTE DE FILHOS – “Minha mãe, conhecida como Maria Chavinha, adotou muitas crianças, mas ela não criou ninguém sem falar com elas que eram filhos adotivos. Deixava isso claro, logo que eles podiam entender. Falava com as mães dos meninos que elas podiam vir na nossa casa para que eles mantivessem esse contato. Ela gostava muito de crianças; aliás, ela gostava muito de todo mundo, seja criança, jovem, adulto e idoso, jovem. Como as mães sabiam que ela gostava de criança, traziam elas aqui na porta de casa e entregavam para ela. Ela adotou vinte e cinco crianças. O 1º chegou aqui com 7 dias, mas depois foram chegando outros, de todas as idades: 1 ano, 1ano e meio, 2 anos... Eu já estava mais crescida e ajudava a cuidar, a dar o banhos e as mamadeiras que a mamãe preparava. Ela fazia um panelão cheio de mingau de fubá (riso), porque os meus irmãos de sangue já trabalhavam e ajudavam. A casa era sempre repleta de alegria e de união, porque do mesmo jeito que ela criou os filhos biológicos, ela criou os, adotivos. Todo mundo chamava ela de mãe. Aqui em casa dormiam trinta e seis pessoas. Para caber tanto gente, eram colocados beliches, com um dormindo em cima e outro, embaixo. Os eram colocados no berço, um de um lado e outro, do outro e dava tudo certinho, cabia todo mundo, graças a Deus. E ainda vinham os amigos dos meninos e ela colocava todo mundo nos quartos (riso).”

“MEU PAI SE SEPAROU DA MINHA MÃE, MAS ELA FAZIA COMIDA E MANDAVA UM PRATO PRA ELE E AINDA PEDIA PRA GENTE ARRUMAR A CASA DELE...”

ADOLESCÊNCIA - “Depois, eu fiz o curso de enfermagem, com 16 anos e meio, quando teve o 1º curso de enfermagem no hospital. Os professores eram enfermeiros e médicos que davam as aulas pra gente, durante um ano e meio. Formei e comecei a trabalhar aqui, mas aí a minha irmã, Maria Efigênia, arrumou serviço em Belo Horizonte pra mim, no Hospital Felício Roxo, até completar 18 anos, quando eles assinaram ou minha carteira. Foi uma turma grande daqui fazer esse curso e a gente morava dentro mesmo dentro do hospital, onde tinha uma área com quartos. O almoço e o jantar também eram lá. Todos nós vínhamos a Pará de Minas em toda folga que tínhamos. Vínhamos de manhã e voltávamos à tarde, para pegar serviço no outro dia. Fiquei assim, durante 6 anos e, depois, voltei para ajudar a minha mãe, de novo, criar os meus irmãos de criação, porque cada dia chegava um diferente. Meus irmãos que me pediram para voltar, para não colocar uma pessoa desconhecida ajudando a minha mãe. Aí, não trabalhei mais, com meus irmãos sustentando a gente e deu tudo certo, graças a Deus! Eu ajudei ela até ela adoecer e aí não deu mais para pegar as crianças. Ela faleceu de derrame, com 74 anos, há 54 anos. Eu estava com 30 e poucos anos e todo mundo já estava criado. Aí, eles casaram e foram morar fora, mas eles vêm me ver a dinha Ana e pedem a benção.”

SOLIDARIDADE - “Eles chamavam minha mãe de mãe e o meu irmão mais velho de pai, porque o meu pai se separou da minha mãe e ela não quis casar mais. O meu pai, já meio adoecido, quando precisava de alguma coisa, pedia para o vizinho falar com a minha mãe, pra ela mandar um dos meninos, para cuidar dele. Ela fazia comida e mandava um prato pra ele e ainda pedia pra gente arrumar a casa dele e fazer um café.Ela gostava muito dele. Eu não sei o motivo da separação. Só sei que ele disse que não iria ficar mais dentro de casa. Ainda assim, cuidou dele, ele lá e ela cá. Eu também cuidei dos meus irmãos mesmo casados, quando eles adoeceram, porque éramos muito unidos e moravam aqui perto.” 

E HOJE EM DIA? - “* A minha rotina é aqui em casa, porque não estou muito bem de saúde, com a idade chegando (riso) e o médico proíbe a gente de sair sozinha. Eu levanto, tomo meu banho, passo minha pintura (no rosto), tomo café, tomo os meus remédios e, se tem que sair para consultas marcadas, vou, porque tenho uma menina cuidadora aqui em casa, que vai comigo nos lugares. Ela vem três vezes por semana. Nos outros dias, eu fico com Deus! Às vezes, quando ela chega, eu falo que ela não precisa trocar de roupa não, porque vamos para a rua entrar nas lojas todas e não comprar nada (riso). Só pra passear, encontrar com um ou outro. * Sou pensionista, porque meu irmão que faleceu por último me colocou como dependente dele. Mas para viver, não precisamos ter muito não, a gente controla e, às vezes, compra uma roupinha nova. * Neste momento, estou reformando a casa, aos poucos, e as minhas irmãs vêm, telefonam, perguntam se estou precisando de alguma coisa. Tem sempre alguém aqui, inclusive vizinhos. * Além disso, eu gosto de fazer crochê, ponto cruz, vejo televisão, escuto rádio nas horas de rezar, com os padres Geraldo Gabriel e Reginaldo. Pego também um livro para ler e gosto de ver vídeos no celular. * Acho o mundo de hoje mais difícil, principalmente em criação da família, porque mudou muito, mas sei que tem que mudar, tem que desenvolver. * Sobre os jovens de hoje é difícil de responder, porque que não tive filho nenhum (riso), mas acho que eles estão muito sem juízo, pois não querem saber de trabalhar, estudar e, como se diz o ditado, quer crescer de uma vez e não aos poucos. * O momento mais feliz da minha vida é quando reúne todo mundo da família, os adotivos e os de sangue. Quando chega todo mundo, a casa fica cheia. E tem os amigos também e eu acho ótimo. * O momento mais triste da minha vida foi quando perdi a minha mãe, o meu pai e irmãos. * Sinto saudades do Cine Imperial e do Cine Vitória. Eu ia aos filmes das 19H. * Sinto saudade também de dar umas voltas, pela rua Benedito Valadares, quando a gente ficava indo e voltando (footing). Eu ficava olhando os moços, parava, dava uma conversinha, apreciando aquela beleza toda (risos). Até hoje, não gosto de feios não, só de bonitos! * Sinto falta também do carnaval de antigamente, quando eu descia para ver os desfiles na rua Benedito Valadares. A gente tinha um lugar onde ficávamos, rindo, pulando. Era muito bom! * O segredo para chegar à minha idade é conversar com todo mundo, ter fé em Deus, ter amigos, uma alimentação boa e médicos bons, como os que cuidam de mim, sempre com carinho, amor e respeito grande.” 

* Sobre a manchete que saiu no GP 2133, sobre uma dessas filhas adotivas, chamada Édna Rodrigues, hoje residente em Contagem/MG, que quer saber quem é ou foi a sua mãe biológica, Anna disse que, infelizmente, não tem uma resposta para dar a ela. Mas falou que se ela quiser conhecê-la, como irmã, que ela será muito bem recebida em sua casa.

ANNA DOS REIS SILVA, 86

Mais da Gazeta