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Ano 42 - Nº 2129

06 de Julho de 2026

2129

HISTÓRIA DE VIDA

Historias

06/07/2026
HISTÓRIA DE VIDA

Valdir Gonçalves de Oliveira, filho de Otávio Gonçalves Rezende e Maria Ducarmo de Oliveira, nasceu em Ribeirão do Ouro/MG, município de Florestal, em 15 de agosto de 1936. Cresceu em uma família numerosa, ao lado de doze irmãos: Vera, Eustáquio, Geraldo, Antônio, Sônia, Carminha, Valter (+), Valda (+), Maria (+), Gabriela (+), Ana Maria (+) e Fernando (+). Em 31 de dezembro de 1955, Valdir casou-se com Maria de Lourdes Chaves (mostrada no GP 2126), morando na casa dos pais de Valdir. 9 meses depois, ele construiu um paiol para armazenar o milho da colheita e, junto a ele, ergueu dois cômodos simples, onde iniciou a vida a dois. Quatro anos mais tarde, construiu, também próximo ao paiol, uma casa maior, onde criou sua família. Dessa união nasceram onze filhos: Maria da Consolação (Fia), Geraldo, Sueli, Marli, Silene, João Batista, Maria Geralda, Maria do Carmo, José Otávio, Aparecido/Cidinho e Luciene, que lhe deram vinte e um netos: Fabiana, Daniel, Letícia, Ana Carolina, Ana Cristina, João Vitor, Ariane, Marco Túlio, Tiago, Samuel, Vanessa, Ana Paula, Pâmela, Luma, Tomás, Melina, Maria Fernanda, Sofia, os gêmeos Victor e Pedro, e Ian. Sua descendência continua crescendo por meio de seus treze bisnetos: Júlia, Luiza, Rayana, Davi, João Gabriel, Mariana, Giovanna, Theo, Benício, Maria Beatriz, Ana Alice, Mateus e Ana Liz, além de Antônio, que nascerá neste mês. Para saber mais sobre a história de vida dele, a reportagem GP conversou com Valdir Gonçalves de Oliveira. Acompanhe.

“Nasci e passei toda a minha vida em fazenda. Meu pai era um homem trabalhador. Tirava leite para vender, negociava gado, plantava lavouras e mantinha um Ralo, onde produzia farinha de mandioca para o consumo da família e também para vender. Minha infância foi simples, mas muito feliz! Cresci cercado por meus irmãos, brincando pelos campos, pastos e córregos da fazenda. Brincava de pião, uma das diversões preferidas da meninada daquela época. Pegávamos canos de milho, para fazer orelhas de cavalo e saíamos correndo, imaginando aventuras. Também gostávamos de pescar nos corguinhos (pequenos córregos) e de explorar a natureza ao nosso redor. Naquele tempo, era comum as pessoas capturarem pássaros, como juritis e canarinhos, para criá-los em gaiolas. Eu mesmo armava arapucas e pegava passarinhos. Era um costume muito comum e, praticamente, toda casa tinha alguma gaiola pendurada na varanda. Com o passar dos anos, as coisas mudaram. Surgiram leis protegendo os pássaros e proibindo que fossem mantidos em gaiolas. Acredito que essa foi uma das melhores decisões tomadas no país. Afinal, os pássaros nasceram para voar livres, cantar nas matas e viver em seu ambiente natural. Tenho muitas lembranças daquela época: o trabalho na fazenda, as brincadeiras com meus irmãos, as pescarias nos córregos e os ensinamentos que recebi de meus pais. Foram anos que moldaram quem eu sou e que me ensinaram valores que carrego até hoje,” relembra Valdir. 

O SENHOR ESTUDOU? – “Entrei na escola aos 8 anos de idade e estudei até a 3ª série. Não tive oportunidade de continuar os estudos. Naquele tempo, a vida no campo exigia muito trabalho e, desde cedo, precisei ajudar a minha família. A vida foi a minha grande professora, quando aprendi com o trabalho, com as dificuldades e com as experiências de cada dia. Costumo dizer que a minha faculdade foi o cabo de uma enxada. Foi trabalhando na terra que aprendi o valor do esforço, da disciplina e da responsabilidade!”

A ADOLESCÊNCIA – “Trabalhei muito na minha adolescência: capinava quintais, cuidava da lavoura, ajudava em tudo que era preciso. Desde pequeno, trabalhava no Ralo, descascando mandioca. Quando cresci, passei a torrar farinha, mas eu não gostava desse serviço. Às vezes, deixava a farinha queimar, na esperança de que me tirassem da torra, mas não adiantou. Acabava apanhando e tinha de continuar fazendo o trabalho. Passei muitos anos torrando farinha, enfrentando uma rotina difícil e pesada. Também ajudei a alfabetizar no Mobral, na década de 70. Pegava nas mãos dos alunos para ajuda-los a escrever o nome . Fui, por muitos anos, dirigente do Culto Dominical na Comunidade, sempre participando da vida religiosa e social do lugar onde vivi.”

O CASAMENTO – “Conheci minha esposa na escola, quando eu ainda era menino. Eu tinha apenas 9 anos e a gente namorava escondido (riso). Quando ela chegou à escola, eu já estudava lá, há 1 ano. Ela era uma menina linda, de pele clarinha, olhos claros e tranças nos cabelos. Foi paixão à primeira vista! Ela não tinha muita facilidade com matemática, então eu gostava de ajudá-la a fazer as contas. Nas brincadeiras e na hora do recreio, eu sempre procurava tirá-la para participar das rodas e ficar perto dela. Uma das lembranças mais bonitas que guardo daquele tempo são as rezas do mês de maio. As meninas que se vestiam de anjos recebiam cartuchos cheios de amendoins e outras guloseimas. Como eu sabia que ela não gostava muito dos amendoins, ficava esperando que ela me desse os dela. Para mim, aquilo era um presente especial! Os anos foram passando e nosso namoro foi ficando, cada vez mais sério. Eu tinha certeza de que aquela menina de tranças era a pessoa com quem eu queria passar o resto da minha vida. Quando completei 19 anos, tomei a decisão mais importante da minha vida: pedi a mão dela em casamento. Casamos no dia 31 de dezembro, em Mateus Leme/MG, debaixo de muita chuva. Assim, começamos a nossa jornada, como marido e esposa, enfrentando desafios, compartilhando conquistas e construindo uma família, baseada no amor, no respeito e na união. O que começou como uma amizade de infância, entre cadernos, brincadeiras, rezas de maio e pequenos gestos de carinho transformou-se em uma história de amor que atravessou décadas e se tornou o maior tesouro de nossas vidas! O terreno de meu pai, onde construí a nossa casa, hoje é a minha herança. Ali, plantei para o sustento da minha família: arroz, feijão, algodão, fumo, milho, etc.. Minha esposa, além de costurar, cuidava de uma horta, de onde colhíamos verduras e legumes para a nossa casa. Tivemos também uma pequena venda no antigo paiol, onde trabalhava à noite e nos fins de semana, atendendo a comunidade. A vida na roça era muito difícil. Nos meses de chuva, roçávamos os pastos. Nos meses de seca, fazíamos farinha e, no engenho do meu avô, rapadura, para adoçar o café. Com o tempo, construí um curral no meu sítio, onde comecei a tirar leite para sustentar a família e fazer queijo para vender. Comecei com poucas vacas, mas com a mudança de meu pai para a cidade, arrendei a fazenda dele e passei a tirar uma quantidade maior de leite. Assim, vendendo leite e gado, fui construindo, aos poucos, um pequeno patrimônio.” 

HOJE EM DIA – “* Hoje em dia, não faço mais nada. Já trabalhei muito nesta vida. Minha esposa diz que fico cochilando no sofá, porque durmo durante o dia. Gosto muito de assistir televisão. Gosto, especialmente, do programa do Chaves, tanto que o meu cachorro atual se chama Kiko. Já tive muitos cachorros. Acho que uma casa sem cachorro fica muito triste. * Uma das minhas maiores tristezas foi a morte do meu cachorro Pitoco, que morreu há 2 anos. Ele já estava velhinho e tínhamos uma amizade muito grande. Ele morreu, quando eu estava internado com dengue. Nem pude me despedir dele... * Tenho saudade do tempo em que carreava e pescava nos corguinhos, que hoje nem existem mais. * O mundo mudou muito. A mocidade de hoje não sabe o que é dificuldade. Antigamente, o povo passava por muito trabalho. Os jovens de hoje ficam mais no celular. * Para chegar bem aos 90 anos, a gente tem que alimentar e dormir bem e trabalhar muito, enquanto pode. * Hoje, a minha diversão é jogar truco. Gosto muito, principalmente de ir em Florestal/MG jogar na praça, no Naio. Os meus filhos me levam. Gosto também de beber uma caipirinha. A que minha filha Maria Geralda faz é a mais gostosa. A Fia fez uma pra mim, mas esqueceu de colocar pinga (risos). * Eu e minha esposa completamos 70 anos de casamento, em dezembro do ano passado. Foi uma vida inteira juntos, construída com amor, trabalho e companheirismo. * Hoje, minha memória já não é mais a mesma. Às vezes, faço perguntas repetidas, esqueço algumas coisas e tenho dificuldade com as slembranças. Minha esposa, por vezes, fica brava e perde a paciência, mas está sempre ao meu lado, me ajudando e cuidando de mim, com dedicação. Mesmo com as dificuldades da idade, sinto gratidão por tudo o que vivemos juntos. Depois de tantos anos, o mais importante é saber que seguimos lado a lado, um cuidando do outro, como sempre foi, em toda a nossa vida. Existe uma música que diz que um pai cuida de dez filhos, mas dez filhos não cuidam de um pai. Mas no meu caso é diferente. Tenho onze filhos que, hoje, já próximo de completar 90 anos, cuidam muito bem de mim, com todo carinho e amor. É uma bênção poder contar com o apoio dos filhos, nesta fase da vida.” 

TRISTEZAS E ALEGRIAS – “* Em 1983, a minha irmã mais velha faleceu no estado de Goiás. Alugamos uma Kombi e fomos para o velório dela. Durante o velório, recebemos a notícia de que meu pai havia falecido. Tivemos que retornar às pressas e quase não chegamos a tempo do enterro dele. Esse foi um dos momentos mais difíceis da minha vida, marcado pela dor de perder dois familiares tão importantes, quase que no mesmo dia. * Também tive a dor de perder a minha mãe, outros irmãos e um genro muito querido, o Luiz, há 3 anos. São perdas que deixam saudade e marcam, profundamente, a vida da gente. * O momento mais feliz da minha vida foi quando eu estava namorando e, pela 1ª vez, peguei na mão da Lourdes, à noite. A gente namorava sentado na sala, num banco e tinha que ficar longe um do outro. Meu sogro ficava vigiando. Namorávamos só sentados e eu dormia na casa dela, em Pau Grande. Um dia, à noite, consegui finalmente segurar a mão dela. Aquilo ficou marcado para sempre no meu coração. * Uma das maiores alegrias que tive, depois que me aposentei, foi participar de pescarias no rio São Francisco, na Bahia. Chegava a ir duas ou três vezes por ano. Também participei, juntamente com primos, genros e filhos de um rancho de pescaria no Mato Grosso. Só parei de pescar, por causa da idade. Quando eu pescava nos corguinhos da minha infância, usava varas de anzol que nós mesmos fazíamos. Quando comecei a fazer pescarias na Bahia e no Mato Grosso, passei a ter equipamentos de pesca de 1ª linha. Houve uma época em que cheguei a ter seis carretilhas diferentes. Lá, a gente pescava só peixes grandes.” 

VALDIR GONÇALVES DE OLIVEIRA, 89

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