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Ano 42 - Nº 2130

16 de Julho de 2026

2130

“O ADAUTO PRESTOU UM DESSERVIÇO À CIDADE, AO VENDER A RÁDIO PARA A DIOCESE”

Notícias

15/07/2026
“O ADAUTO PRESTOU UM DESSERVIÇO À CIDADE, AO VENDER A RÁDIO PARA A DIOCESE”

Após anos dedicados ao rádio e à informação, um dos repórteres mais populares da Emissora Santa Cruz encerrou sua trajetória, de forma inesperada, ao ser demitido. A saída dele repercutiu entre colegas de trabalho e ouvintes, levantando todos a reflexões sobre as transformações no mercado da comunicação e os novos caminhos a seguir. Na recepção da GAZETA, a reportagem GP conversou com o Amilton Maciel dos Santos, 76, casado há 51 anos com Maria Aparecida dos Santos, com quem teve três filhos: Éverton, Ronei e Elaine, que lhe deram cinco netos e dois bisnetos. Confira o resumo.

“Da 1ª vez, eu trabalhei na rádio durante 19 anos e sai porque quis. Na agora, na 2ª vez, fui demitido. Comecei lá meses depois da rádio ter sido fundada, em 1979. Depois, fui contratado novamente. Então, no total foram 39 anos na Rádio Santa Cruz, 5, na Espacial, e 2, na TVI,”completa Amilton.

FALE DA DEMISSÃO - “Claro que eu não imaginava encerrar o ciclo dessa forma, quando o gerente da emissora, Gilmar, sobrinho do padre Geraldo Gabriel, me disse, sumariamente, que eu estava sendo demitido. O padre Gabriel confirmou e você não tem o que discutir, quando é demitido. É aceitar e pronto! Mas o meu sentimento é de alegria, porque, na verdade, eu pretendia sair também, só que seria mais pra frente, mais ou menos no início do ano que vem. Mas há um sentimento de tristeza também, por causa dos colegas de trabalho, porque eu adoro aquela turma e também pela administração da empresa. Então, na verdade, quando o padre Gabriel me demitiu, ele acabou me fazendo um favor, porque na verdade, eu pretendia me aposentar e seguir a vida com a minha família. Então, não tenho mágoa nenhuma, não, porque o que eu tinha de fazer pela emissora e pelo povo de Pará de Minas, eu fiz e sempre com muito amor, nesses 39 anos.”

“A MINHA HISTÓRIA NO RÁDIO NINGUÉM VAI APAGAR. ELA VAI CONTINUAR, ETERNAMENTE”

MUITA LIMITAÇÃO - “Sempre foi muito boa a minha relação com todos os diretores que passaram por lá. Inclusive o meu saudoso amigo, Alano Melgaço, toda a família Melgaço. Mas o Adauto Melgaço, irmão do Alano, prestou um desserviço a Pará de Minas, ao vender a emissora para a Diocese, porque passando a ser uma emissora católica, evidentemente, ela vai falar só a linguagem da igreja. Aí é prejuízo para a cidade, prejuízo para a sociedade, muitas matérias que não saiam. Mas isso não é privilégio da Rádio Santa Cruz, porque qualquer órgão de imprensa dirigido por uma igreja tem muita limitação. Mas a igreja nunca me proibiu de fazer nada, mas como eu já sabia que não iria ao ar, nem fazia. Como é que eu iria falar mal das pessoas, como eu sempre falei? Às vezes, eu falava até palavrão no meu noticiário policial...”

FOI PROCESSADO? – “Fui acionado algumas vezes, mas ganhei a maioria. Porém, na última ação na justiça, eu tive que pagar 5 mil reais de indenização, pelo que eu falei, trocando o nome da vítima pelo autor. E mesmo pedindo desculpas, mesmo justificando no dia seguinte, o autor da ação exigiu que eu pagasse. A emissora nem tomava conhecimento do que eu estava passando e eu que pagava tudo. Nunca dei esse trabalho para a emissora pagar dívidas de problemas de palavras ditas ao microfone. Nunca!”

“TEM QUE TER CORAGEM PARA ASSUMIR TUDO, INCLUSIVE AS PUNIÇÕES”

SENTE FALTA? - “Não, pelo contrário, porque agora estou tendo mais tempo para a minha vida particular. Minha família está adorando e 45 anos de trabalho foi muito tempo. Já chega! Felizmente, continuo sendo reconhecido pelo público. Vejo isso nas ruas, o tempo todo, dizendo que eu não podia ter saído, e alguns ficam bravos e xingam a direção da emissora. Agora, confesso que eu não sei se a direção da emissora reconhece o meu trabalho, apesar de eu até imaginar que sim. Afinal, a minha história no rádio ninguém vai apagar. Ela vai continuar, eternamente, porque está tudo escrito, gravado. Agora, estou terminando de escrever um livro, onde eu conto passagens da história de Pará de Minas e quem não sabe vai ficar sabendo. A minha esposa Cidinha, flor do meu dia a dia, estou sempre junto com ela em tudo e a gente está ótimo. É vida que segue, com ela ao meu lado sempre. Agora, os meus filhos passam aqui e falam: Pai, bora, bora? E eu vou passear, principalmente na fazenda de um deles, em Brasília/DF. Então, tudo isso impacta na minha vida, de forma muito positiva, pois cumpri bem a minha missão, tenho certeza disso! Quando eu comecei a entender de rádio, Pará de Minas tinha pouco mais de vinte mil habitantes e hoje tem mais de cem. Quer dizer, fui acompanhando toda a trajetória do desenvolvimento da cidade e espero que outras pessoas também consigam fazer o mesmo ou pelo menos tentem.”

O QUE FALTA NO NOTICIÁRIO ATUAL? – “De um modo geral, está faltando tudo no noticiário policial brasileiro. Não se podem falar nomes mais, o cara mata, rouba, comete todo tipo de atrocidade, de crime e você não pode divulgar o nome? É só no Brasil que tem essas coisas. A polícia não passa mais os nomes, de jeito nenhum. Depois da Constituição de 88, tudo é proibido!”

ALGUMA LEMBRANÇA? – “Eu prefiro lembrar-me dos bons momentos, apesar de que ressentimento a gente tem muito. Quantas pessoas me humilharam, quantos problemas já passei nas ruas. Agressões, inclusive. Ameaças, então, eu perdi até quantas vezes fui ameaçado de morte. Uma vez, no passado, um de meus filhos, que está bem de vida hoje, cometeu um delito na cidade e eu fui ao microfone e disse: Não é porque é meu filho que eu vou deixar de falar. Minha missão é informar! O policial me ligou e perguntou: Como é que eu faço, Amilton? Ele nos agrediu! Eu respondi: Planta a mão no ouvido dele e prende ele! Amanhã eu pego ele. No dia seguinte, eu fui lá tirar ele e ainda noticiei para ele apreender. Quero que as pessoas lembrem de mim, como o repórter Amilton Maciel que dedicou a vida inteira a Pará de Minas, todo santo dia, andando pra baixo e pra cima, de manhã e à tarde, todo santo dia, colhendo as notícias por menores que elas fossem. Claro que tudo isso com a ajuda dos colegas de trabalho, principalmente da Myrtes, para fazer um jornal todo dia, com notícias locais e regionais. Isso não é pra qualquer um, não! E para os ouvintes da rádio a minha mensagem é de agradecimento, amor e carinho, por sempre terem me honrado com audiência total. É só agradecer e bola pra frente!”

ALGO MAIS? – “Prezo um jornalismo sincero e honesto. Não tem esse negócio de ser de meio termo, porque tem de ser é ou não é. Quando você assume o jornalismo, você tem que ter coragem para assumir tudo, inclusive as punições, quando elas ocorrem!”

O perspicaz Amilton Maciel, na recepção deste GP Jornal, após ser demitido da Rádio Santa Cruz, quando foi entrevistado pelo GP Diego Medina. Nos detalhes, fotos de sua ativa trajetória: “Nos últimos meses, a emissora passou a editar os meus noticiários policiais. Se eu falasse algo que a emissora não concordava, era tudo cortado e ponto final”