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Ano 42 - Nº 2126

12 de Junho de 2026

2126

HISTÓRIA DE VIDA

Historias

11/06/2026
HISTÓRIA DE VIDA

Maria de Lourdes Chaves de Oliveira, filha de João Alves Chaves e Maria Geralda de Jesus, nasceu em 4 de fevereiro de 1937, em Pau Grande, distrito de Florestal/MG. Cresceu em uma família numerosa, ao lado de seus doze irmãos. Para saber mais sobre a história de vida dela, a reportagem GP conversou com Maria de Lourdes Chaves de Oliveira. Acompanhe.

“Nasci em uma família que possuía uma fazenda e uma casa grande e meu pai tinha vacas, tirava leite para vender e criava porcos e nunca passamos por qualquer tipo de necessidade. Eu brincava muito com meus irmãos: de casinha, de boneca de sabugo de milho e de esconde-esconde entre as moitas. Quando acontecia o terço de São João, vinham pessoas de toda a redondeza para participar. Tinha biscoitos feitos no forno e estouravam muitos foguetes. No outro dia de manhã, eu saía para o pasto com os meus irmãos à procura das varetas e cordões que sobravam dos foguetes pra gente brincar. Naquela época, não tínhamos brinquedos comprados e precisávamos criar as nossas próprias brincadeiras, usando a imaginação e aproveitando tudo o que a natureza nos oferecia. Entrei na escola aos 9 anos, em Ribeirão do Ouro. A professora, dona Lica, era muito brava e costumava bater nos alunos. Em mim, ela nunca batia, porque era minha madrinha. Quando cheguei lá, me encantei por um menino moreno que chamou a minha atenção, desde o 1º dia. Como ele sempre fazia as minhas tarefas de matemática, nunca aprendi a fazer contas de dividir. Só aprendi a ler e a escrever. Eu brincava muito na escola de quebra-foice, passar anel e brincadeiras de roda, quando ele sempre me escolhia para dançar. Eu ficava muito feliz. A escola ficava muito longe de casa. Estudei lá por apenas 2 anos. Digo, brincando, que eu não cresci muito, porque andava demais para ir e voltar da escola” (riso).

ADOLESCÊNCIA – “Saí da escola e passei a ajudar nos afazeres domésticos e a cuidar dos meus irmãos menores. Muitas vezes, eu brincava, carregando um irmão nas cadeiras (quadril). Aos 15 anos, fiz um curso de corte e costura com uma prima e aprendi a costurar. Passei a fazer roupas para a família e também para outras pessoas na máquina da minha mãe. Porém, quando nasciam bezerras na fazenda, meu pai costumava presentear as filhas com elas. Com o dinheiro da venda de uma dessas vacas, consegui comprar a minha própria máquina de costura. Na fazenda, quando nasciam bezerras, meu pai costumava presentear as filhas com elas. Com o dinheiro da venda de uma dessas vacas, consegui comprar minha própria máquina de costura. Como os pais daquele menino moreno da escola moravam em uma fazenda próxima à dos meus pais, nós nos encontrávamos, frequentemente, em festas, casamentos e outras celebrações. Com 17 anos, começamos a namorar.”

O CASAMENTO – “Com 19 anos, me casei com ele, o Valdir Gonçalves de Oliveira. O casamento foi em Mateus Leme/MG. Eu pretendia me casar em 1956, em abril, mas o meu avô não deixou, porque era ano bissexto e ele acreditava que, assim, eu não seria feliz. Assim, mesmo sabendo que dezembro era mês muito chuvoso, marcamos casamento para o dia 31 de dezembro de1955. Fui para a cerimônia de caminhão. A estrada estava cheia de carros atolados e quase não conseguimos chegar lá. Casamos e fomos morar na casa dos meus sogros, em Ribeirão do Ouro, durante 9 meses. Foi uma experiência difícil, porque eu não gostava de morar na casa dos outros. Depois, construímos um paiol para guardar milho, já que a colheita era boa. Junto ao paiol, foram construídos dois cômodos, onde passamos a morar. Fiquei muito feliz, quando fomos morar naquele paiol, pois foi ali que, realmente, começou a nossa vida a dois. Foi um início de vida difícil, mas feliz! Continuei trabalhando como costureira. Naquela época, eu não tinha mesa para cortar os tecidos. Colocava um caixote sobre a cama para trabalhar nas minhas costuras. Com o meu trabalho de costureira e o trabalho do meu esposo na agricultura, 4 anos depois conseguimos construir a nossa casa. Tivemos onze filhos: Maria da Consolação (Fia), Geraldo, Sueli, Marli, Silene, João Batista, Maria Geralda, Maria do Carmo, José Otávio, Aparecido/Cidinho e Luciene. Minha família cresceu cercada de amor, união e muitos momentos compartilhados. Os filhos foram crescendo e, aos poucos, precisaram deixar Ribeirão do Ouro para estudar e trabalhar em Pará de Minas, pois lá havia escola só até o 4º ano. Aí, compramos uma casa em Pará de Minas para proporcionar a eles melhores oportunidades e, graças a Deus, quase todos puderam estudar, se formar e construir uma vida digna, por meio do trabalho. Com o passar dos anos, todos se casaram e formaram suas próprias famílias. Tem uma filha que mora na Suíça, onde eu e meu esposo tivemos a alegria de visitá-la duas vezes, experiências que guardamos com muito carinho. Uma das maiores riquezas que construímos foi a união entre nossos filhos. Sempre lhes ensinei que, em nossa família, não havia espaço para brigas ou ressentimentos. Nunca gostei da ideia de irmãos que deixam de conversar. Fui firme nesse ensinamento e, graças a Deus, colho os frutos, até hoje, pois tenho uma família unida, que gosta de estar junta e celebrar os momentos importantes, além de apoiar uns aos outros. Ao longo da vida, construí um grande legado familiar e hoje tenho vinte e um netos (Fabiana, Daniel, Letícia, Ana Carolina, Ana Cristina, João Vitor, Ariane, Marco Túlio, Tiago, Samuel, Vanessa, Ana Paula, Pâmela, Luma, Thomás, Melina, Maria Fernanda, Sofia, os gêmeos Victor e Pedro, e Ian) e quase quinze bisnetos (Júlia, Luiza, Raiana, Davi, João Gabriel, Mariana, Giovanna, Theo, Benício, Maria Beatriz, Ana Alice, Mateus, Ana Liz, além de Antônio, que nascerá no próximo mês, e mais outro, a caminho).

ALEGRIA E TRISTEZA - “* Um dos dias mais felizes da minha vida foi quando nós nos mudamos para o paiol. Foi um momento que marcou a minha história e me trouxe muitas alegrias. Tenho saudades do paiol, porque não havia casa para arrumar e sobrava mais tempo para costurar. * Entre as tristezas que marcaram a minha vida, uma das mais dolorosas foi a morte do irmão Martinho, assassinado quando ele tinha 42 anos, bem como a perda do meu genro Luís que faleceu há 3 anos, após uma cirurgia no coração.” 

HOJE EM DIA – “Em 2025, eu e meu esposo completamos 70 anos de casamento. Foram anos de muito trabalho, paciência, compreensão, fé em Deus e, acima de tudo, muito amor! Olhando para trás, sinto uma profunda gratidão pela vida que construímos. Mesmo com a idade avançada, procuro me manter ativa. Ainda costuro, porque me dá prazer, fazendo pijaminhas e colchas de flanela para quase todas as crianças da família. Também gosto de cuidar das minhas plantas e galinhas, atividades simples que sempre me trazem alegria. * Quando comparo o mundo de hoje com o, de antigamente, vejo muitas mudanças. Tudo parece mais rápido e mais complicado. As músicas já não são como antes. Nas festas, a sanfona animava o salão e as pessoas dançavam e se divertiam juntas. Eram tempos mais simples, mas cheios de encanto. São lembranças que guardo com carinho e saudade, como um tesouro que o tempo não pode apagar. * Os anos vão chegando, os cabelos embranquecem, chegam as limitações e já não tenho a mesma força de antes. Então, preciso da ajuda de uma bengala para caminhar. Ainda assim, sigo firme ao lado do meu companheiro de toda vida, agradecendo a Deus por cada dia vivido. * Mas também é o momento de colher os frutos de tudo que foi plantado, ao longo da vida. Os onze filhos que Deus me deu cresceram, construíram suas famílias e seguem seus caminhos, mas nunca deixaram de cuidar de nós. Eu e meu esposo recebemos deles muito carinho, atenção e dedicação. Em cada visita, em cada telefonema e em cada gesto de cuidado, sinto que todo o amor que procuramos transmitir durante a vida, voltou para nós multiplicado.”

MARIA DE LOURDES CHAVES DE OLIVEIRA, 89