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Ano 42 - Nº 2115
27 de Março de 2026
Hoje foi a primeira vez que minha avó perguntou meu nome... Eu imaginava que aconteceria um dia, mas deixei o futuro lidar com isso à sua maneira. Sempre idealizamos como seriam os encontros, mas não é comum imaginarmos como serão os desencontros. Separar-se não é um resultado que fabricamos em sonhos, principalmente quando há presença. Nas últimas vezes em que visitei a minha avó, senti que estávamos nos despedindo de um modo diferente. A cada partida, existia a sensação de que, naquele abraço, ficaria embrulhado um pedacinho da nossa história - algo que mergulharia nas lembranças que o coração não divide mais com a memória. Hoje, eu me reencontrei com seus olhinhos azuis e me permiti entrar como se a buscasse com as mãos dentro de si. Enquanto ela conversava comigo, eu lhe dizia o quanto a amava e sentia saudade. Repeti esse roteiro algumas vezes e via os olhinhos brilharem em nosso compartir de afeto. Ela entendia, sorria e dizia palavras que me acarinhavam por dentro e por fora. Despedi-me dela para voltar a Belo Horizonte. Mas não consegui dar as costas e simplesmente ir. Voltei ao seu quarto e ela estava com os olhinhos fechados. O ranger do piso de madeira a fez abrí-los e eu lhe disse que gostaria de me despedir. Entrei naquele céu azul que nos une e disse que eu a amava muito e que ela vivia no meu coração. Acrescentei: A senhora tem um quarto só seu nele e é muito grande! Ela respondeu: Assim que é bom! Antes que aquela lembrança se aninhasse longe das narrativas, eu aproveitei para beijar sua mão e lhe contei que eu tinha a melhor e mais bonita avó do mundo. Vovó - entrando nos meus olhos para, agora, me puxar pela mão - disse: Você é bonita e boa... Toda vida foi. Ali, naquele abraço, ficou mais um pedacinho de nós duas. Talvez uma página que não será lida em voz alta e cujos detalhes se percam no amanhã. Não importa... Em nosso reencontro, enquanto eu buscava relembrá-la do amor, foi ela quem me mostrou que nunca o esquecera. MAÍLA CAMPOLINA.
Maria Pontes com seu filho, o médico Renato e a filha dele, Maíla Campolina. Maria Pontes com os filhos Renato, Ricardo, Maria José e Rômulo. Merle Gleice e seu sobrinho, Gustavo